quarta-feira, 13 de março de 2013

O Dono da Zona

       Eram dois funcionários públicos.
       O Malto, mais antigo na profissão se cuidava um pouco. Gostava de uma caminhada e sempre levava um short para fazer uma caminhada ou mesmo uma corrida durante os dias em que estava viajando.
       Já o Diogo não ligava muito para nada, não. Gostava mesmo era de uma boa cerveja. Bem gordinho, assim que terminado o horário de trabalho, já queria logo ir procurar um bom barzinho e se sentar para tomar uns goles.
       Em uma de suas viagens juntos, o Malto exigiu:
       - Desta vez você vai levar um tênis, tá bom?
       No primeiro dia de viagem, após uma visita inicial à prefeitura, e não sendo nem 4 horas da tarde, o atlético Malto pergunta:
       - E aí, e o tênis veio? Ao que o obesinho Diogo responde:
       - Não. O supostamente mais consciente Malto, então, sismou de surpreender o colega. Antes de mais nada, percebeu que seria necessário se adaptar à nova situação. De repente ele fala com ênfase:
        - Então vamo beber!!!...
        E começou a sessão de gole. Acompanhados do Afonso, o ajudante de todas as horas que conduzia o carro da equipe, antes da 5 horas da tarde já estavam no bar. Cerveja vai, cerveja vem, mais cerveja, cigarros de palha. Mais cerveja e mais cerveja. Conversa vai, conversa vem... Pessoas se assentam para ajudar a beber. Amigos eternos são feitos de repente, gente que nunca mais se voltará a ver..
        De todo o ocorrido depois que a noite caiu, Malto, o pretenso corredor, ao invés de correr ou caminhar só se lembra que “marchou” em direção ao Hotel que ficava bem em frente ao bar em questão.
Dia seguinte, 6 horas ou 6 e trinta:
       O Malto tenta identificar algum sinal de vida, ou seja, a primeira abordagem ao Diogo que ficara no bar e que, só para refrescar a memória, era o que havia esquecido o tênis.
Bate-se à porta do quarto e nada. Esmurra-se a porta do quarto e nada. Procura-se então o motorista que havia ficado a lhe fazer companhia. O incansável e heróico, Afonso, condutor do veículo também se arvorava em acompanhar profissionais de gole até o final da noite. 
       Pois é...
       Afonso foi encontrado...
       Estava no saguão do hotel, sentado ereto mas com aparência um tanto quanto "estranha". Encontrava-se com aparência de acordado, banho tomado, roupa limpa e assentado no sofá da recepção. Os olhos, porém, pareciam vidrados, sem capacidade de comunicar coerentemente. Apenas afirmou que deviam ter chegado, aproximadamente, umas 20 para as 4h da manhã.
Em vista da situação de Afonso, o motorista, Malto procura novamente acordar o redondinho Diogo que havia ficado até tarde na rua. Nenhuma forma de contato. Suspeita de morte. Ora, tratava-se de servidor bem gordinho, de condições de saúde desconhecidas e já próximo dos 40 anos e que portanto inspirava cuidados.
      O mais discretamente possível, em vista da possível urgência que surgia, procura-se um meio de verificar se há vida no cadáver do colega em questão. Por sorte, tratava-se de hotel daqueles antigos e cuja chave, bem grande, deveria ser encaixada num buraco de dimensões proporcionais, ou seja: Dava para dar uma expiada pelo buraco da fechadura.
      Olhando-se pelo buraco da fechadura, foi possível identificar a protuberância tipo pão de açúcar que era a barriga do colega adiposinho. Mais importante que isso, era possível ver que o pão de açúcar subia e descia. O que no sentido denotativo, ou seja, no sentido estrito, poderia significar um grande desastre natural ocorrendo em uma conhecida cidade brasileira era na verdade um bom indício de que o dorminhoco tinha salvação.  Estava vivo. Após a porta ser esmurrada várias vezes, o pão de açúcar tomou com muito custo a posição horizontal, projetando-se na direção do pé da cama e o arredondado servidor pronunciou algum esforço para se levantar. Nisso já se aproximavam as 10 horas da manhã.
       Haja fôlego em seguida para colocar nosso tomatinho em pé e fazê-lo cumprir seu horário, ou pelo menos suas tarefas. Estando Malto já devidamente paramentado, com as roupas de trabalho, pode então assessorar o outro na demanda por se haver pronto o mais rápido possível para o cumprimento da missão daquela manhã. Foram apenas 13 km de deslocamento, mas que pareciam intermináveis de medo de que Afonso, o motorista,  apagasse ou de que o dorminhoco – que além de gordinho era baixinho – rolasse para debaixo do painel do carro de tanto sono que ambos estavam.
       Chegando à prefeitura, a missão foi cumprida com zelo. Pelo menos aquele tanto que cabia ser feito na parte da manhã. Tratar-se-ia agora de conseguir almoço. Em municípios pequenos não cabe ficar escolhendo onde comer ou recusar a gentileza do pessoal local em oferecer comida. Optou-se por aceitar o convite para almoçar em uma cozinha pública que, anexa ao posto de saúde, servia também as refeições destinadas a médicos e enfermeiros, por exemplo.
        Encaminharam-se os servidores ao porto de saúde. Adentrando o posto, devidamente acompanhados do motorista, os servidores foram amavelmente saudados com a frase “Ooooiiii Geeennnnteeeimm! Boomm Diiiia...” Tratava-se de um amável ser humano do sexo masculino com aproximadamente uns 1,8 metros ou mais de altura. Essa medida parecia se repetir na largura devido às dimensões laterais da figura. Cabelos com “reflexos” ou “luzes” completavam o visual pitoresco do indíviduo em questão.
        Não foi possível que Malto, o que foi dormir mais cedo, deixasse de ver a expressão de surpresa no rosto do motorista ao avistar a vultosa figurava que saudava a equipe na entrada do posto de saúde.
        Passou-se então ao refeitório, onde uma amável senhora já ia preparando os pratos para pô-los à mesa já posta para a comida. Em um certo momento a funcionária que servia a comida se retirou. Estando o motorista ciente de que ninguém os observava, liberou o verbo.
        A frase pronunciada em seguida, se tornaria um dos ícones do estilo de vida perigoso de funcionários que gostam de sair à noite e se esbaldar mesmo estando em municípios pequenos. Ele disse:
         - “O dono da zona é o recepcionista do posto de saúde”!!!
         Que se aprenda a lição: Em cidades pequenas as pessoas podem assumir diversas posições no organismo social. Tal fato pode levar o servidor público visitante a situações senão embaraçosas mas tremendamente cômicas...

Nenhum comentário:

Postar um comentário